A CIDADE ETERNA

joão mellão neto

 

 

João Mellão Neto *

No domingo, como venho fazendo há, no mínimo, dois anos, compareci à missa. Curiosamente, adquiri esse hábito, em parte, por influência de minha mulher e também por causa de uma grande graça recebida. Hoje em dia vou à missa espontaneamente. Se não tiver um motivo específico, vou simplesmente agradecer a Deus o milagre da vida. E o fato de estar incluído nele.

Na paróquia que frequento há um sacerdote com o dom da palavra. E ele sempre nos comove com as suas bênçãos. Trata-se do padre Alexandro, um mexicano que desembarcou por aqui trazendo consigo a fé e a esperança. Mas o que mais me atrai nessa paróquia é o alto grau de confiança de seus fiéis. Procuro não me manifestar em demasia para poder ouvir a opinião dos demais. O depoimento mais sábio que deles ouvi foi o de um rapaz aparentando meia-idade que justificava sua fé plena no cristianismo valendo-se de um único grande argumento: a Igreja Católica venceu o teste do tempo. Em mais de 2 mil anos não foram poucos os desafios que enfrentou: falsos profetas, “bezerros de ouro”, demônios os mais diversos. Não obstante, logrou manter-se de pé. O que, neste mundo de Deus, tem resistido a tantas e tamanhas provas? Tudo no mundo passa: os muros desmoronam, as modas se desvanecem, os impérios viram pó. Só a palavra de Deus permanece. Não seria isso o suficiente para nela acreditar?

A melhor e mais sutil definição do cristianismo nos chegou de Tertuliano, que foi advogado em Cartago. Experimentado esgrimista das palavras, mais que ninguém ele sabia fazer passar o falso pelo verdadeiro e o verdadeiro por falso. Não obstante essa habilidade, quando lhe coube decifrar a fé cristã, saiu-se com o argumento: “Eu creio, creio, sim. Creio porque é absurdo!”

O que teria Tertuliano querido dizer com tal jogo de palavras? Muitas são as possíveis interpretações. A mais provável é a seguinte: a vinda de Jesus à Terra reveste-se de mistérios de que até hoje ninguém arrisca uma interpretação. Ele tinha poderes para se evadir da cruz, no entanto se prontificou a enfrentá-la, com todo o suplício que lhe traria. Por que um descendente do rei David se disporia a nascer numa manjedoura na companhia de diversos animais? Todas essas dúvidas se dissiparam nas brumas do tempo. Mais de 2 mil anos se passaram para que tal ocorresse.

O que foi feito de Pedro, André, Felipe e Bartolomeu? Foram barbaramente executados. E de Mateus, Matias, Tomé e Tiago? Tiveram o mesmo fim. E São Judas Tadeu? Foi crucificado, como todos. São Pedro, executado de ponta-cabeça, tornou-se o patriarca da nova igreja. Percebe-se que a história da Igreja Católica teve mártires em abundância. Todos contribuíram com sua crença e a regaram com seu sangue. Ao final retiraram-se todos para as catacumbas e lá pereceram em razão de sua fé.

Não é à toa que Roma tem tantas e tão variadas igrejas. Aliás, o sentido original da palavra igreja é eclesia, que significa congregação de fiéis. Depois que a perseguição aos cristãos arrefeceu se descobriram muitos e muitos templos, a ponto de o Vaticano nem sequer ser capaz de mantê-los. A história da Igreja é indissoluvelmente ligada à de suas vítimas. A ponto de muitas delas terem sido vendidas como relíquias às cidades que não as possuíam. É o caso, por exemplo, de Nápoles, que requisitou a Roma uma santa e a recebeu de bom grado. Um grande problema da Itália, por sinal, é o que fazer de seus templos. Calcula-se que haja, no mínimo, dois templos para cada mecenas que se disponha a adotá-los.

Na Roma onde imperava Nero não havia nada disso, a ponto de ele próprio ter ordenado a execução na cruz de milhares de desafetos. E o fez na famosa Via Ápia, uma das principais artérias romanas. A cidade tinha outros locais de execução. O mais famoso (que tive a oportunidade de conhecer) era a Rocha Tarpeia, de onde eram lançados os supostos inimigos do Império. Em suas famosas prédicas antidemocráticas, Mussolini sempre cuidava de alertar o povo: “Acautelai-vos, meus pares. A Rocha Tarpeia encontra-se a poucos metros do Senado romano!”

A Catedral de São Pedro foi erguida muito tempo depois, por volta de 1500. Tamanho foi o custo das obras que seus patrocinadores, os príncipes germânicos, romperam com Roma e passaram a não lhe dedicar mais nenhum centavo. Esse foi o custo para os católicos, a Reforma protestante – decisiva para o desenvolvimento econômico das nações do norte europeu. Se alguém tiver interesse em saber que obras foram essas, basta visitar a catedral, no Vaticano. A suntuosidade das obras ali expostas é autoexplicativa: tudo é de mármore, o mais refinado, as estátuas são perfeitas. Agora se descobriu que tais estátuas originalmente estavam vestidas com roupas. As roupas se desfizeram com o tempo, as estátuas, obviamente, não. E ali estão elas para relembrar um passado de extrema glória da Roma clássica.

Tudo, claramente, foi construído para exaltar as glórias de Roma e também para mostrar ao mundo quão insignificante é o ser humano perante Deus. A Catedral de São Pedro representou o ápice da Igreja Católica. Nunca mais se fez uma obra de tal vulto – e não havia sequer mais condições de fazê-lo. A Cidade Eterna hoje é composta, em grande parte, de ruínas. Não há mais vestígios daqueles que entregaram a própria vida em nome da fé que tão ardentemente professaram.

No caso de Roma, a profecia histórica novamente se cumpriu. Reza ela que um povo começa a desfibrar-se muitos anos antes de sua derrocada final. Isso se dá quando suas virtudes – ao menos aquelas que o fizeram grande – são abandonadas a troco do deleite e de seu desfrute. Seus cidadãos passam a acreditar que nenhum sobre-esforço vale mais a pena e que ninguém, sob a luz do Sol, poderá desafiá-los. É assim que todos, invariavelmente, desmoronam. A conclusão é a mesma para todos: não existem povos eleitos, o que existe são povos que, eventualmente, se elegem.

* João Mellão Neto é jornalista, foi deputado, secretário e ministro de Estado. E-mail: [email protected]. Facebook: João Mellão Neto.

 Fonte: O Estado de São Paulo, Opinião, 05 de abril de 2013