PAPA FRANCISCO: CONSERVADOR OU PROGRESSISTA?

Já vi as mais diferentes respostas para essa pergunta.

Valter de Oliveira

Naturalmente, depende de ponto de vista, depende da própria visão teológica de quem responde.

Outra pergunta: ele poderia ser as duas coisas? Poderia ter uma doutrina conservadora e uma práxis progressista?  E que tal afirmar que  até mesmo em ambas apresenta aspectos contraditórios?

Termino com outra pergunta: é lícito, é adequado a um católico tais  preocupações e interrogações? É filial?

Massimo Borghesi

O filósofo italiano Massimo Borguesi responde  através de um livro sobre o Papa.   No título de uma entrevista que encontrei no site da ihu.unisinos  já encontramos uma resposta inicial.

O PAPA NÃO É NEM CONSERVADOR E NEM PROGRESSISTA.  É MISSIONÁRIO E SOCIAL

Entrevista com Massimo Borghesi

Capa do livro

O autor de ‘O desafio de Francisco‘, Massimo Borghesi, apresenta o livro em Valência e destaca que o pontífice é tradicional na doutrina e aberto nas questões sociais.

A entrevista é de João Sanchis, publicada por Las Províncias, 23-05-2022. 

Massimo Borghesi é um intelectual italiano que estudou muito de perto o Papa Francisco. Depois de ‘Jorge Bergoglio. Uma biografia intelectual’ publicada em Ediciones Encuentro sai agora ‘O desafio Francisco. Do neoconservadorismo ao hospital de campanha‘.

Eis a entrevista. 

Por que o livro?

O livro nasce da biografia intelectual de Bergoglio. Trato da formação de Francisco para responder às críticas que atacaram o papa latino-americano. Disseram que seu aprendizado era fraco. Mostro que a formação dele é muito complexa e rica e tem um lado latino-americano e um lado europeu. Neste livro, levo em consideração os críticos americanos, a corrente dos neoconservadores que são os catocapitalistas (americanismo católico).

O que são os ‘catocapitalistas’?

É uma corrente que se formou na década de oitenta do século passado sob a presidência Reagan composta por católicos que vieram da esquerda e que se converteram à direita liberal e formaram um americanismo católico. Os mais importantes são Michael Novak, George Weigel e Richard Neuhaus. Esta tríade torna-se o mais importante intelectual católico na década de 90 e em particular após o 11 de setembro. Eles são muito importantes e na administração Bush assumem um papel forte e orientam a igreja americana.

Por que essa importância?

Porque na década de 1990 Novak se propôs como intérprete da ‘Centessimus Annus‘ de João Paulo II (1992). A interpretação que oferecem é uma leitura muito tendenciosa e muito parcial. Segundo os neocons, a encíclica representa a primeira vez que a reconciliação entre catolicismo e capitalismo e este Papa seria o primeiro a legitimar o capitalismo na doutrina social da Igreja. Esta é uma leitura falsa porque todo o documento constitui uma crítica ao neocapitalismo após a queda do comunismo. Esta interpretação é imposta à consciência católica americana e os novos conservadores católicos tornam-se intérpretes de João Paulo II na América. Daí sua força e importância.

Qual é a sua marca na igreja americana?

Por um lado, a defesa do capitalismo liberal e o esquecimento da Doutrina Social. Por outro lado, há uma concepção de fé que no espaço público tem como único objetivo a ‘guerra cultural’: a luta contra o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a eutanásia. Isso totaliza o compromisso cristão na história. É um catolicismo que esquece a evangelização e a promoção do homem. Essa corrente é a que hoje se opõe ao papado de Francisco nos EUA.

Mas Francisco, ele é progressista ou conservador?

Papa não é progressista nem conservador. É missionário e social. Essa é a definição correta. É tradicional na doutrina e aberto na questão social.

Contra a eutanásia e o aborto.

Contra o aborto você disse as palavras mais fortes dos papas anteriores. Mas a luta contra o aborto ou a eutanásia é apenas parte do compromisso cristão. A questão da pobreza é importante, assim como a social e o compromisso com a justiça. A luta do Papa é contra o modelo tecnocrático que domina o cenário antropológico e político. Para este modelo, só a eficácia é importante e exclui os fracos, os pobres, os idosos, as crianças malformadas… Em segundo lugar, a luta pela justiça social deve ser acompanhada de um testemunho cristão integral sob o primado da evangelização.

Como é a Igreja para Francisco?

Papa Paulo VI

Seu mestre é Paulo VI que em 1975 publicou ‘Evangeli Nuntiandi‘ no qual afirmava a importância da polaridade entre evangelização e promoção humana. Este é o programa do Francisco. O Papa reage a uma igreja fechada, burocratizada e clericalizada. Esta é a igreja dos últimos 30 anos após a queda do comunismo. A igreja com medo da secularização. Contrariamente a este processo, o Papa quer uma Igreja em saída ou uma Igreja missionária, aberta, capaz de ir ao encontro do homem do nosso tempo.

É uma visão diferente da de Rod Dreher.

Rod Dreher

Dreher é interessante porque representa a autocrítica do modelo ‘neocon‘ de que falamos. Dreher entende que a busca por dois ou três valores não muda um homem. O catolicismo americano luta contra o aborto, mas no resto aceita a pena de morte, a guerra ou as diferenças sociais. Ame a riqueza. Este é um americano católico liberal conservador. Dreher, que é conservador, acredita que é necessária uma formação cristã antes de se envolver na política. Ele teoriza pequenas comunidades como uma contracultura à secularização. A perspectiva do Papa é diferente. Você não quer pequenas comunidades. Ele quer que o cristianismo seja capaz de encontrar o mundo hoje. Você quer que seja popular, não aristocrático ou elitista. Ele vem da América Latina, onde o cristianismo é uma realidade popular.

Como nasceu o pensamento do Papa?

Nasceu de um encontro entre a teologia do povo da escola argentina de Río de la Plata, que é uma teologia não marxista da libertação, e a teologia conciliar da Escola de Lyon. O autor chave e fundamental é Romano Guardini. Bergoglio tem uma concepção polar e antinômica da realidade que permite uma teoria da paz como equilíbrio e relacionamento.

O que você quer dizer com a expressão hospital de campanha?

Igreja antes de julgar o mal do mundo deve curar as feridas do homem contemporâneo. Esta é a razão pela qual Francisco entende seu papado como de misericórdia. Ele não é um papa benfeitor como os conservadores o acusam, é um papa evangélico que sabe que o perdão ajuda na confissão do pecado.

https://www.ihu.unisinos.br/618878-o-papa-nao-e-progressista-nem-conservador-e-missionario-e-social-entrevista-com-massimo-borghesi

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