UM CASAMENTO SEM POVO

José Maria C. S. Andre


A 1 de Maio (não no tempo da Covid mas em 1952), Brithe Bringsted e Jerôme Lejeune casaram-se. Ele era médico, de família burguesa, ela uma dinamarquesa sem fortuna nem pergaminhos, de educação protestante, órfã de pai. Demorou muitos anos a que a família de Jerôme a aceitasse e só um tio e a mulher compareceram na cerimônia do casamento, numa igreja católica de Anderson, na Dinamarca. O rapaz tinha nascido numa sexta-feira dia 13 e casava-se no dia lº de Maio… não seria mau presságio?

Herve et Clara Gaymard
Clara Lejeune Gaymard

As histórias deste amor arrebatado foram contadas em várias biografias, em particular na que foi escrita pela filha Clara Lejeune-Gaymard («La Vie est un Bonheur», Criterion). «Pai, o que é o amor à primeira vista?». Jerôme responde: «Não sei por que razão os joelhos tremem e a garganta fica seca quando a pessoa se enamora, mas sem dúvida o que se passou com a tua mãe e comigo foi um amor destes, como o fulgor de um relâmpago». Ao falar da extraordinária vida científica e intelectual de Jerôme Lejeune, convém recordar esta parte de poesia romântica e de alegria familiar prolongada e partilhada com os cinco filhos do casal.

Não cabe aqui a enumeração de todas as suas descobertas científicas, em campos diversificados da medicina. As mais conhecidas referem-se à trissomia 21, à trissomia 16 e ao efeito da radiação nuclear sobre a saúde. Foi um dos percursores mais notáveis da genética médica e, para cientistas de todo o mundo, parecia o candidato óbvio ao prémio Nobel.

Жером Лежен | VLI
Jerôme Lejeune

Entretanto, mal começou a campanha mundial a favor do aborto, Jerôme Lejeune divulgou na opinião pública as suas observações, mostrando que o embrião tinha sensações, e pulmões, e mãos, e impressões digitais, e que, apesar da sua dimensão mínima, constituía um ser humano maravilhoso. Não era este o contributo que se esperava dele. Do dia para a noite, o entusiasmo dos poderes públicos transformou-se em oposição feroz. O Governo francês retirou-lhe o financiamento para a investigação e levantou-lhe todos os entraves possíveis. A partir de então, Lejeune teve de pagar a investigação com donativos privados e a nomeação para o prêmio Nobel ficou fora de hipótese.

Em França e no estrangeiro, organizaram-se campanhas de ódio contra ele. Escreveram-se coisas que ainda hoje arrepiam. Foi atacado pela extrema-direita, que o acusou de ser uma víbora sexual, agente da KGB, assassino do Papa, etc., e, passando das palavras aos atos, furaram-lhe os pneus do carro. Mais violentos foram os ambientes do capitalismo ateu e das ideologias marxistas, que jamais lhe perdoaram a sua defesa da vida humana. Houve ameaças sérias, além da perseguição administrativa verrinosa e da campanha persistente nos meios de comunicação. Felizmente, Jerôme Lejeune tinha um bom humor capaz de aguentar tudo e, principalmente, uma relação com Deus fortíssima e uma mulher excepcional.

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Cruzou-se com gente extraordinária. Chegou a ser grande amigo de João Paulo II, que o nomeou membro da Academia Pontifícia das Ciências, Presidente da Academia Pontifícia para a Vida e o escolheu várias vezes como embaixador especial. É simbólico que o Papa tivesse almoçado com o casal Lejeune pouco antes de sofrer o atentado na praça de S. Pedro e que, Jerôme tivesse de ser hospitalizado com uma doença aguda no mesmo dia em que o Papa entrava no hospital.

Dra. Wanda Poltawska

A médica psiquiátrica Wanda Poltawska, sobrevivente do campo de prisoneiros de Ravensbrück, onde foi usada pelos nazis como cobaia em experiências médicas macabras, amiga dos Lejeune e muito próxima de Karol Wojtyla, conta que ela e o marido tomavam o pequeno-almoço com o Papa, no Vaticano, quando souberam da morte de Jerôme Lejeune: «foi um choque terrível para João Paulo II – “Meu Deus, eu tinha tanta necessidade dele…”». As longas páginas de condolências que João Paulo II escreveu, traduzem o que esta perda representou para ele. E o Papa voltou a comover-se quando, dias depois, Anouk, uma das filhas de Lejeune, lhe levou a dezena artesanal que o pai tinha feito para entregar ao Papa.

Académie pour la vie: Mme Birthe Lejeune membre honoraire - ZENIT ...
Birthe Lejeune

A aversão de alguns setores a Lejeune, falecido em 1994 (há já mais de 25 anos), não esmoreceu e projeta-se hoje contra os membros da família e outras pessoas próximas. Mas uma multidão cada vez maior guarda no coração a sua memória. Aproveitando uma viagem a França, João Paulo II foi expressamente ao cemitério rezar diante do túmulo de Jerôme Lejeune. Bento XVI autorizou em 2007 que a diocese de Paris iniciasse o processo de canonização. Em 2013, ele foi um dos mais votados pela população francesa para ser colocado no Panteão nacional. Em 2016, o Papa Francisco nomeou Birthe Lejeune, mulher de Jerôme, membro «ad honorem» da Academia Pontifícia para a Vida e no ano seguinte o Vaticano recebeu a documentação recolhida em França (15 mil páginas), para estudar a sua beatificação.

Enfim, uma novela épica! E interruptamente romântica, desde aquele 1º de Maio de 1952.

Fonte: http://spedeus.blogspot.com/2020/05/um-casamento-sem-povo.html

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