CONVERSÃO DE ÁLVARO SIQUEIRA

Hoje, 17 de abril de 2021, faleceu Álvaro Pedroso de Siqueira, supernumerário do Opus Dei.

Álvaro Siqueira

Álvaro tinha 27 anos e vamos reproduzir uma entrevista realizada em 13 de maio de 2014, na qual ele conta como foi sua conversão ao catolicismo, quando tinha, então, 20 anos.

Uma vida bem vivida não é contada pelo número de anos que vivemos, mas pelo significado e importância que damos a ela. Álvaro soube aproveitar muito bem seus 27 anos de vida. Viveu bem. Morreu bem.

É um exemplo que nos fica para que não deixemos “para amanhã”, “para quando estivermos mais velhos”. O “amanhã” pode ser hoje. Que tenhamos, como Álvaro, boas coisas a serem lembradas.

Segue a entrevista:

(…) Nesta semana falamos com Álvaro, nascido em Franco da Rocha na grande São Paulo, Álvaro se converteu ao catolicismo no ano passado. Abaixo as respostas, que ele gentilmente escreveu, para as nossas perguntas.

Álvaro, no dia de seu batizado, com os padrinhos, a mãe e alguns amigos

Negócios de Família: Você poderia contar como chegou a ser batizado como católico? Como sua família reagiu?


Álvaro Siqueira: O decurso de minha conversão e batismo levou cerca de um ano e está intimamente ligado com o trabalho do Opus Dei. Eu era protestante por causa da família e o pouco que conhecia da Santa Igreja Católica era fundamentado no preconceito da igreja evangélica. Havia sido reprovado no exame de vestibular e por um acaso (por providencia na realidade) comecei a fazer cursinho no Tatuapé, lugar muito distante de onde moro. Foi lá que conheci Leonardo Relvas, que me falou de certa “palestra com o Padre” num Centro Universitário. Fui por curiosidade. Sentia uma carência que não compreendia muito bem, acreditava que era devida a minha falta de instrução. Embora estivesse tendo aulas de doutrina protestante para me batizar (eu ainda não era batizado nem na igreja protestante), reconhecia que sabia pouco sobre religiosidade e achei que os católicos podiam dar uma mãozinha. Mas não queria misturar-me, muito menos tomar a confissão de fé católica, só queria ter um reforço, uma carga horária maior de estudo no que diz respeito à religião.
Gostei da palestra e resolvi voltar outra vez e outra vez. Não eram só as palestras (que chamamos de “meditação”) que eu apreciava, mas também as outras atividades que o Centro Universitário oferecia. Havia o “papo filosófico”, a “tertúlia”, a “pizza da sexta” e eu também podia falar com a sacerdote (depois vim a saber que aquela conversa tem o nome de “Direção Espiritual”). Aceitei conversar com o padre porque tinha duvidas quanto ao livro do Gênesis e ele se propôs a elucidá-las. Não demorou e aquele gosto tornou-se encanto. O Opus Dei era encantador. Eu conhecia vários católicos, mas nunca tinha visto o catolicismo ser vivido daquela maneira e me dei conta de que na realidade não conhecia o catolicismo. Os membros do Opus Dei tem em abundancia algo que eu procurava nas pessoas e não encontrava chamado “unidade de vida”. Não que as pessoas que conheço não vivam o que falavam, mas no que se refere à religião, dentre as pessoas que conhecia na época, ninguém se assemelhava a eles. Essa unidade de vida foi fundamental para minha conversão. Estavam ali, bem na minha frente, pessoas que viviam o evangelho, que não argumentavam com palavras, mas com o modo de viver. Todavia, ainda demoraria a conversão.
Passaram-se dez meses. Aproximava-se a data de meu batismo na igreja protestante. Eu já havia iniciado aulas de catequese com o Pedro Paulo, membro do Opus Dei, e lia o Catecismo da Igreja Católica. Como estava incerto se deveria batizar-me ou não fui orientado a adiar o batismo, mas não era algo fácil. Passei pelo conselho de membros da Igreja Presbiteriana e respondi corretamente as perguntas que me fizeram (mal sabiam eles que algumas delas eu me baseava nas aulas de catequese católica para dar a resposta) e fui aprovado. Um dos membros presbiterianos disse que sentira algo que nunca havia sentido com aquele grupo que iria batizar-se. O pastor tinha grande estima por mim e eu também gostava muito dele. Eu mesmo havia insistido com ele para ser batizado e agora que chegava o momento não queria mais receber o sacramento. Foi então que aconteceu algo maravilhoso que, embora vá aumentar o tamanho dessa minha resposta á pergunta “como chegou a ser batizado como católico?”, sinto-me impulsionado a contar:

Paróquia Nossa Senhora da Conceição

Foi na paróquia Nossa Senhora da Conceição, do Tatuapé, próxima de onde eu fazia o cursinho. Costumava ir lá com o Leonardo Relvas e com a Thelli Vieira para, além de assistir a missa da quarta feira (eu assistia as missas mais para entender o rito que para participar), ter aulas com o pároco Rodrigo e para rezar no intervalo entre aulas. Um dia antes de meu batismo fui lá para rezar e dizer a Deus o quanto estava apreensivo com o meu batismo protestante, que já havia aceitado. No oratório, além do Santíssimo Sacramentado, há duas estátuas, uma de Nossa Senhora de Fátima e outra do Sagrado Coração de Jesus. Nessa segunda estátua Jesus aponta para o seu coração e com a outra mão mostra sua chaga, como que convidando-nos a estar com ele. Enquanto rezava eu olhava fixamente ao coração e, por um instante, senti que não era mais para o Seu próprio coração que Nosso Senhor apontava, mas para o meu, dizendo “Olha para o teu coração que não te coloco essa inquietação por motivo fútil, mas para que perceba a intenção que Eu tenho”. Sai de lá com a certeza de que não podia me batizar naquele momento e assim fiz.

No domingo de meu batismo liguei para o Pastor e disse que não iria batizar-me. Ele compreendeu, mas chamou-me para ir ao culto mesmo assim e eu fui. Como avisei em cima da hora não deu tempo de informar ao meu avô que não haveria mais o meu batismo, de maneira que ele também estava lá só para ver-me. Naquele dia todos do meu grupo foram batizados, eu estava na última cadeira da igreja, um pouco envergonhado, e toda a igreja se perguntava “onde está o Álvaro?”, porque havia sido anunciado entre eles que eu seria batizado naquela noite. Não fiquei para a festa que sucedeu a ablução e todos ficaram sem entender o que havia acontecido.
Passou um mês e eu continuei nas aulas de Doutrina Católica com o Pedro Paulo, bem como na Direção Espiritual com Padre Marcos. Chegou então o dia do Retiro Espiritual com o pessoal do Opus Dei. Eu estava inscrito. Foi lá que minha conversão se completou. Ali vi pela primeira vez a recitação do terço em grupo e numa das meditações o Padre Marcos nos contou do milagre de Fátima, com pormenores que me fez meditar e crer no milagre, bem como me encantar com o acontecido. E então, embaixo duma arvore da chácara em que fizemos o Retiro, fiz minha primeira oração a Maria, dizendo “Maria, nunca a tive por minha Mãe, embora sempre fosse e confesso, como bem sabes, que te mal disse e te desprezei, porque foi assim que sempre aprendi. Todavia agora peço, embora já seja, que me tome por filho teu”. E assim inicie minha devoção Mariana e, a modelo dos pastorzinhos de Fátima, comecei a rezar o terço diariamente. Foi a Thelli quem me ensinou e me emprestou um folhetinho.

Daquele ponto em diante eu já era mais católico que protestante, e já sabia muita coisa do catolicismo. O próprio Pedro Paulo disse com bom humor: “cara, se você já reza o terço é um católico!”, ao cabo que eu disse “creio ter chegado o momento de batizar-me como tal”.

Paróquia Santa Generosa

No dia 19 de maio recebi o Batismo na paróquia Santa Generosa, do bairro Paraíso, na festa de pentecostes, e posso dizer que com exclusividade porque, por um erro de comunicação, cheguei para ser batizado as 17h00 horas, sendo que o horário de batismo era as 12h00. Apenas eu fui o batizando daquele horário. Os padrinhos foram o Leonardo Relvas e a Thelli Vieira, que acompanharam de perto minha conversão e sempre me orientaram, eu não podia ter escolhido melhores (a propósito, eles são um casal de namorados e o Leonardo já é membro do Opus Dei). Minha mãe também estava lá e, apesar de ser protestante, aceitou muito bem minha conversão, até me deu posteriormente, para meu espanto, uma estatua de Nossa Senhora de Aparecida, que disse ter achado linda. Outros membros do Opus Dei estavam lá, até o Padre Marcos, que disse inicialmente que não poderia ir. Três amigos meus estavam lá também, Lucas (que posteriormente foi o meu padrinho de crisma), César e Amanda, e vale ressaltar a presença deles porque o dia do meu batizado era o dia da final do campeonato de futebol do time de coração deles. Eles abriram mão de assistir o campeonato só para ver o meu batismo e deixaram de ver o seu time ser campeão.

O Restante de minha família também aceitou muito bem a minha conversão. Com exceção de uma tia minha, nenhum deles são praticantes da religião que confessam ter. Eu rezo constantemente para que se convertam, a começar pela minha mãe.

NF: Você esteve na JMJ logo após ter sido recebido na Igreja Católica, poderia nos contar suas impressões daqueles dias?

AS: A JMJ foi um enorme amontoado de fatos extraordinários. Seriam necessárias muitas laudas para escrever tudo o que ali se passou. Foi lá que vi o Papa a cerca de dois metros de distância e também, embora isso não tenha tanta índole espiritual, que vi o mar pela primeira vez, conheci o Rio de Janeiro pela primeira vez (alias foi a primeira vez que sai de São Paulo) e vi o Cristo Redentor. De tudo o que aconteceu abordarei cinco causos que muito me emocionaram e que acho dignos de nota.

O primeiro já foi citado, que foi ver o Papa de perto. Todos nós estávamos num frenesi para vê-lo e gritávamos para exteriorizar aquela agigantada expectativa e mostrar o quanto admirávamos o Sumo Pontífice. Quando o Papa Francisco passou por nós nos abençoando era difícil escolher o que fazer. Como demonstrar tanta alegria naqueles poucos segundos que o Papamóvel transladava por nós? Era muito para tão pouco. Lembro-me que fiquei quieto admirado, ou será que gritei? Não estou muito acertado.

Tenho certeza de que estava todo alegre, e tudo se fazia uma acalorada animação.

O segundo causo foi a hora de receber a comunhão na missa dominical com o Papa. Eu não sabia que éramos cerca de três milhões e setecentos mil fiéis. Tudo o que sabia era que se via devotos até onde os olhos podiam enxergar. Éramos muitos. Devido àquela quantidade pensei que não conseguiria chegar à hóstia, mas não foi assim. Entrei na fila e rapidamente recebi a comunhão e todos os que estavam comigo também receberam. Enchi-me de alegria.

O terceiro causo também foi na praia, no momento que me dei conta de onde estava. Alguns acontecimentos são tão grandes, de dimensões tão colossais, que não percebemos a natureza de sua grandeza por olharmos de perto, por estarmos nele. Aconteceu-me de, por um determinado intervalo de tempo, perceber um pouco daquilo que era a JMJ. Todas aquelas pessoas: chilenos, russos, paraguaios, australianos, argentinos, poloneses, canadenses, ingleses, sul africanos, camaroneses, norte americanos, brasileiros, e muitos outros, todos nós ali, a Santa Igreja reunida, o Corpo Místico de Cristo. Vivia-se a catolicidade de perto, de maneira inquestionável. Isso era impressionante.

O quarto causo, que não é um fato isolado, mas um acontecimento geral, foi estar com os amigos no Rio de Janeiro desbravando a Cidade Maravilhosa. Quantas maravilhas! Os morros recheados de arvores típicos do Rio (São Paulo também tem morros é claro, mas aqueles do Rio, talvez por estarem tão mesclados com a metrópole, são incríveis), o Arpoador, Copacabana, o Parque Laje, o Jardim Botânico, O Maracanã, O Cristo Redentor (como é linda a visão do Corcovado!), o Cosme Velho… Mais do que o Rio eram as pessoas que ali estavam. Tantas nacionalidades! Tantos trejeitos, tantos costumes! E os amigos por perto, partilhando daquilo, isso era extraordinário.

O quinto causo foi na quinta feira, após estarmos com o Papa em Copacabana. Terminado o evento todos os peregrinos voltavam para os seus alojamentos e, como era de se esperar, apesar de todo o esforço do Governo do Rio, o transporte público não comportava toda aquela gente. Fizeram-se filas intermináveis, tão grandes que o nosso grupo parou para descansar um pouco e esperar as filas diminuírem. Alimentamo-nos e aguardamos cerca de quarenta minutos. Como as filas não diminuíssem resolvemos encará-las e fomos caminhando até o final de uma delas. É comum esperar cinco minutos numa fila, chega até ser banal, às vezes, esperar dez minutos para se chegar ao destino. Mas eu nunca havia visto uma fila que demorasse dez minutos só para se chegar ao seu final. Pois essa era a fila que estávamos prestes a entrar. Após caminharmos dez minutos ainda não havíamos nem sequer chegado ao final da fila! Uma situação deveras desesperadora. E é daí que vem a maravilha.

Geralmente, quando este tipo de “congestionamento” acontece, as pessoas se revoltam e, passado um tempo, começam a xingar e destruir tudo o que veem pela frente. Não era esse o espírito dos peregrinos. Apesar daquele caos todos cantavam, dançavam, faziam graça, batiam um na mão do outro, como se a desgraçada situação fosse motivo para festa, como se aquela demora fosse um proveitoso tempo de estar com o outro e conhecer pessoas novas. E nosso grupo se divertiu tanto naquele fila, cantando e cumprimentando os demais, gritando e festejando, que até pareceu que o tempo resolveu passar rápido, e que chegamos ao nosso destino após míseros três minutos. Foi um espetacular acontecimento.

Lembrando agora tudo isso até parece que a Jornada Mundial da Juventude foi um onírico acontecido. Algo que só calha em raros e deslumbrantes sonhos que Nosso Senhor nos permite ter.

NF: Dos livros que você leu após a sua conversão, qual foi o que mais lhe marcou e porque?

AS: Certamente foi “O Santo Rosário” de São Josemaría Escrivá. Neste livro aprendemos a vivenciar cada um dos mistérios rezados no terço de tal maneira que parece que um dia estivemos na Palestina, ao lado de Cristo, Maria, José e os apóstolos. Aprendemos a partilhar da alegria e das dores de Nossa Senhora, tomamos Cristo no colo após ter nascido, vemo-lo ascender aos céus e sumir no meio das nuvens, procuramos junto a José por Jesus em cada caravana e choramos por não encontrá-lo. Lembro-me que após ler “O Santo Rosário” estava tão afeiçoado à Sagrada Família que me sentia parte dela, coisa que nunca havia sentido como protestante. “O Santo Rosário” foi crucial para aproximar-me mais de Cristo.

Fonte: https://www.negociosdefamilia.com.br/2014/05/conversao-aos-20-alvaro-siqueira.html

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