O PAPA FRANCISCO E AS TENTAÇÕES NA IGREJA

 

Nuvens negras no horizonte

 Valter de Oliveira

Valter de Oliveira

 

Em sua visita ao Brasil, por ocasião da JMJ, o Papa declarou em sua reunião com os cardeais do CELAM que a Igreja Latino-americana e do Caribe enfrenta várias tentações no seu trabalho missionário:

“Algumas tentações contra o discipulado missionário”


A opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações. É importante saber por onde entra o espírito mau, para nos ajudar no discernimento. Não se trata de sair à caça de demônios, mas simplesmente de lucidez e prudência evangélicas. Limito-me a mencionar algumas atitudes que configuram uma Igreja “tentada”. (…) São propostas que podem “mimetizar-se na dinâmica do discipulado missionário e deter, e até fazê-lo fracassar, o processo de Conversão Pastoral.

1. A ideologização da mensagem evangélica. É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do Evangelho e fora da Igreja.

 

Depois o pontífice afirma  que em Aparecida os bispos tinham sofrido a tentação de usar uma hermenêutica asséptica – erro que consistiria em se pretender ter um olhar neutro sobre a realidade. A tentação fora afastada quando perceberam que “o ver está sempre condicionado pelo olhar” e este tem de ser “o olhar do discípulo”.

 

Em seu discurso são citadas as outras tentações ou ideologizações que há na Igreja. Tentações encarnadas em grupos e até novas ordens religiosas (1). Eis suas palavras:

 

PAPA FRANCISCO EM BELÉM(…) Existem outras maneiras de ideologização da mensagem(…). Menciono apenas algumas:

 

a) O reducionismo socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista.


b) A ideologização psicológica. Trata-se de uma hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o “encontro com Jesus Cristo” e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento.
Costuma verificar-se principalmente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais, etc. Acaba por resultar numa posição imanente autorreferencial. Não tem sabor de transcendência, nem portanto de missionariedade.


c) A proposta gnóstica. Muito ligada à tentação anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada, que acaba por desembocar em posições pastorais de “quaestiones disputatae”. Foi o primeiro desvio da comunidade primitiva e reaparece, ao longo da história da Igreja, em edições corrigidas e renovadas. Vulgarmente são denominados “católicos iluminados” (por serem atualmente herdeiros do Iluminismo). Uma gnose a partir da qual se interpreta o Evangelho e a vida pastoral. Com o início do pontificado, chegam cartas, propostas, inquietudes de fiéis e católicos, com desejos: de que se casem os padres, que se ordenem as freiras, que se dê a comunhão dos divorciados. Não vão ao problema de fundo real, mas a estas pequenas posturas ilustradas que nascem precisamente deste tipo de hermenêutica. [trecho improvisado do discurso]

d) A proposta pelagiana (2). Aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Perante os males da Igreja, busca-se uma solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade significativa. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, para a segurança “doutrinal ou disciplinar.” Fundamentalmente é estática, embora em tendências possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura “recuperar” o passado perdido. 

2. O funcionalismo. A sua ação na Igreja é paralisante. Mais do que com a rota, se entusiasma com o “roteiro”. A concepção funcionalista não tolera o mistério, aposta na eficácia. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale é o resultado palpável e as estatísticas. A partir disso, chega-se a todas as modalidades empresariais de Igreja. Constitui uma espécie de “teologia da prosperidade” no organograma da pastoral.

3. O clericalismo é também uma tentação muito atual na América Latina. Curiosamente, na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade viciosa: o sacerdote clericaliza e o leigo lhe pede por favor que o clericalize, porque, no fundo, lhe resulta mais cômodo. O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina: ou não cresce (a maioria), ou se abriga sob coberturas de ideologizações como as indicadas, ou ainda em pertenças parciais e limitadas. Em nossas terras, existe uma forma de liberdade laical através de experiências de povo: o católico como povo. Aqui vê-se uma maior autonomia, geralmente sadia (2), que se expressa fundamentalmente na piedade popular. O capítulo de Aparecida sobre a piedade popular descreve, em profundidade, essa dimensão. A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais está na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical.

Poderíamos continuar descrevendo outras tentações contra o discipulado missionário, mas acho que estas são as mais importantes e com maior força neste momento da América Latina e do Caribe.

Eis as palavras do Papa. Não é nosso objetivo aqui fazer uma análise delas. O que queremos destacar é que, conforme seu discurso, há muita gente fora do verdadeiro espírito missionário e católico no seio da Igreja. 

Quanto a isso qualquer pessoa que acompanha a vida da Igreja não tem nenhuma dúvida.

A questão é que todas essas facções estão DENTRO DA IGREJA. Atuam nela o tempo todo. Terão representantes no Sínodo?

O fiel comum não lê discursos do Papa e não conhece o magistério católico. Como não ser enganado pelos falsos profetas? São dezenas de anos (3) de falta de formação. Não há responsáveis?

Se o Papa tratou do assunto é porque deve estar preocupado com tantas “tentações” e ideologias. Todas afastadas da verdade. Todas mostrando que aumentam as nuvens negras no horizonte.

O católico fiel sabe que a Igreja é indefectível, que as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.

Confia na ação do Espírito Santo. Sabe que Ele a protege em todas as tempestades. Acredita que precisa viver unido a seus irmãos na caridade. E que isto não é possível sem a fé e a moral correspondente.

Sabe também que as graças que Deus nos dá exigem correspondência. Esta depende de muita oração, sacrifícios, reparações.

Deus quer isso de cada um de nós, religiosos e leigos.

Só assim, protegidos pela Virgem, saberemos lutar, com grandeza e simplicidade de alma, com a sagacidade exigida por Cristo, discernindo os lobos dos pastores.

 

 

Notas:

Os destaques em negrito são do site. A numeração é a encontrada no documento papal.

1. Um pedido a quem estiver lendo e queira ajudar. A parte do discurso que trata de “restauradores”  e de pessoas preocupadas com “a segurança doutrinal ou disciplinar” parece-me confuso. Talvez tenha havido improviso do Santo Padre, não sei. Por outro lado não me recordo de ter visto artigos ou livros de conservadores ou tradicionalistas que neguem a importância da graça. Por que seriam eles – ou parte deles – pelagianos? 

2. Pelagianismo. Veja no site o artigo do padre Paulo Ricardo.

http://claravalcister.com/dogma/o-pelagianismo/

3. No Brasil o descuido com a formação é secular.

 

 

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