
Há duas ou três semanas, estava eu no FB, quando me deparei com a seguinte postagem do jovem católico Marcel da Silva::
“Uma das coisas mais nonsense que já vi, é são Bernardo de Claraval dizer que seria uma vergonha para Cristo, se um judeu (ou mais precisamente um descendente), sentasse no trono de São Pedro.
Pq tipo, são Pedro era judeu e o próprio Cristo também.”

Estranhei muito. Não só eu. Outro leitor, chamado Isack, escreveu:
“Manda o trecho e a fonte”
A resposta foi: “ Patrologia Latina, é da Epístola 139, que ele mandou a Lotário III”.
A citação não era precisa. Na verdade, a Epístola citada era a 365. Tratava-se de um tema bem concreto: o posicionamento do santo em relação ao antipapa Anacleto II.
Em certo momento Isack voltou ao debate esclarecendo melhor a questão afirmando que o dito por Marcel não procedia e postou o que encontrara:

“Em 1130, deflagrou-se cisma na Igreja com o Papa Inocêncio II e o Antipapa Anacleto II reivindicando a Sé de Pedro. Escrevendo ao imperador na sua epístola CXXXIX S. Bernardo cita este caso como uma usurpação que seria direito do poder temporal combater, tal qual seu direito-dever de debelar as tentativas de usurpação na Sicília.
Diz ele: “Não é meu papel exortar à luta. É, contudo (digo-o com segurança), próprio de um defensor da Igreja afastar dela a fúria dos cismáticos e é próprio de César reivindicar a sua coroa do usurpador siciliano. Pois, assim como é certo, que uma descendência judaica (judaicam sobolem) tenha ocupado a Sé de Pedro com injúria a Cristo, assim, sem dúvida, todo aquele que na Sicília se fez rei injuria a César”.
Mesmo com a explicação e outros posts esclarecedores Marcel reagiu dizendo que o santo poderia ter sido influenciado pelo preconceito da época contra os judeus. Poderia? Em tese sim. Aconteceu? Não creio, mesmo sendo verdade que em vários momentos da Baixa Idade Média houve não só violências, mas também atitudes preconceituosas contra o povo de Abraão. Isso, penso eu, não nos autoriza a dizer que santos ficassem impregnados por preconceitos contra judeus enquanto povo. Julgo que, em vez de elucubrações contemporâneas, é melhor ver, na vida do santo, como foi que ele tratou de grave perseguição aos judeus feita na Alemanha
Para isso passo a citar um trecho do livro Bernardo de Claraval, de Ailbe Luddy.
Os subtítulos são do claravalcister.
Alemanha: um monge fanático contra os judeus
“Por esta ocasião, todo o Reno estava mergulhado em medonha desordem por um monge fanático, Rodolfo, o qual, falando em nome de Bernardo, aconselhava o extermínio dos judeus com preliminar para a expedição contra os sarracenos. A sua propaganda diabólica revelou-se singularmente eficaz. Apesar dos melhores esforços dos bispos, ocorreram massacres terríveis em Colônia, Mayence, Worms, Spires, Estrasburgo e outras cidades do Reno. O arcebispo de Mayence abrigou os desditosos israelitas em sua casa e apelou para o santo (S. Bernardo) em busca de auxílio. Na sua resposta, Bernardo denuncia o falso profeta nos termos mais vigorosos.

‘É inevitável que surja o escândalo (escreve), mas ai daquele por quem ele surgir (Mat., 18, 17! Ó homem sem coração! Ó monstro desavergonhado que necessita de colocar a sua loucura criminosa “sobre um castiçal para que seja vista por todos na casa” (Mat., 5, 15)… Sois vós aquele que atribuiria a mentira aos profetas e apóstolos onde eles predizem a conversão para os judeus; que tornaria improfícuos à sua vista todos os tesouros de amor e misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, que anularia a prece oferecida pela Igreja, do nascer ao por do sol, em nome dos judeus infiéis, rogando ao Senhor que remova o véu dos seus corações e os arrebate das trevas para a luz da verdade (…) A Igreja triunfa com mais glória sobre os judeus, convertendo-os da sua descrença, do que faria destruindo-os com o gume da espada. “Não os mates (disse o Senhor pelo seu profeta), não vá o meu povo alguma vez olvidar-se” (Sal, 58, 12), pois são para nós monumentos vivos da paixão do Redentor… A doutrina que proclamais não é vossa, mas originária de vosso pai, o demônio, que vos enviou; pois ele foi um assassino desde o princípio; é um mentiroso, pai de mentirosos (João, 8, 44). E basta, para vós, que mintais como vosso amo (Mat., 10, 25). Ó abominável doutrina, sabedoria infernal, oposta aos ensinamentos de todos os profetas e apóstolos,destruidora da caridade e da graça. Ó heresia insensata, plena de blasfêmias e impiedade sacrílega que, inspirada pelo espírito das falsidades, concebeu a dor e gerou a iniquidade (Sal. 7, 15) !
“Haveria bastante mais para dizer-vos sobre este assunto mas o tempo não mo permite. Resumindo: Rodolfo é um homem cheio de presunção e arrogância. As suas palavras e ações revelam que luta por conseguir “um nome tão ilustre como o dos grandes que há na terra” (2 Reis, 7, 9), mas não logrou por enquanto atingir o seu propósito (luc., 14, 28)”.
Das palavras à ação. S.Bernardo visita a Alemanha

“Depois de enviar esta epístola,o santo resolveu visitar pessoalmente a zona perturbada. Principiou a sua jornada no outono de 1146, acompanhado por Godofredo de Auxerre e outro religioso de nome Gerardo. Importantes êxitos aguardavam os seus esforços em Bruges, Afflighem, Liège e Worms. Em Mayence, encontrou Rodolfo à testa de uma turba sedenta de sangue e, embora por momentos a sua vida tivesse perigado, conseguiu intimidar o fanático e induzi-lo a regressar à solidão de sua cela. “Deus imprimira no semblante do Venerável Bernardo uma majestade tão impressionante, que os pecadores se sentiam constrangidos a ceder” frefere Bossuet (Oeuvres, tomo IX, 508)”.
O louvor de um judeu

“Um escritor judeu contemporâneo, Joshua Ben-Meir, deixou-nos um vivo registro das sua experiências naqueles dias trágicos. Depois de descrever as horríveis crueldades perpetradas por Rodolfo e seus sequazes, prossegue assim: “O Senhor comoveu-se com os gemidos de seu povo. Recordou a sua promessa e renovou as suas dádivas. Contra este filho de Belial (Rodolfo), ergueu um homem prudente, Bernardo de Claraval. Este religioso (pela sua maneira de falar) serenou o povo e disse: Marchai contra Sião, defendei o sepulcro de Cristo, mas não toqueis nos hebreus. Falai-lhes com brandura, pois são de carne e ossos do Messias, molestá-los é ferir o Senhor nos seus olhos. Não, o cruel Rodolfo, não vos falou consoante o Espirito da verdade, pois o Espírito Santo disse pela boca do salmista> “Não os mateis, não vá alguém do seu povo olvidar-se” (Sal. 58, 2). Assim falou este homem prudente e a sua voz prevaleceu porque era amado e respeitado por todos. A multidão escutou os seus conselhos, e o ardor da sua cólera esfriou. O sacerdote Bernardo, no entanto, não recebeu ouro ou qualquer prêmio material dos judeus. Foi o seu coração que o levou a amá-los e o impeliu a pronuciar boas palavras por Israel”.
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É isso amigos. Desde jovem admiro muito S. Bernardo. O site chama-se claravalcister em homenagem a ele. Suas homilias são encantadoras. Suas intrépidas ações são monumentais. Não é a toa que é o maior homem do século XII.
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Notas:
- Avisei a Marcel e ao Isack que iria voltar ao assunto em meu site. Por isso seus nomes são citados. Espero que continuem aprofundando seus estudos, em especial os da história da Igreja, onde encontramos os grandiosos exemplos de tantos santos.
- Essa não foi a defesa de judeus convertidos. Foi a dos judeus que não tinham aceitado o Messias mas, que ainda eram tidos como o povo eleito. A oposição existente era à religião, não ao povo.
- As imagens geradas são da IA.
Fonte: Luddy, Ailbe J. S. Bernardo de Claraval. Tradução de Eduardo Saló. São Paulo, Editorial Aster, s/d. P. 469-471,