Por que não ouviu a CNBB?

Em época de eleição, o presidente Lula editou uma medida provisória proibindo as bets. Razão: sua preocupação com os males que estavam provocando na população, especialmente entre as pessoas mais pobres.
Em caminhada de campanha em São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo, Lula afirmou que as apostas haviam se tornado uma “desgraça na vida das pessoas pobres”. Relatou situações de pessoas endividadas, filhos que apostam escondido dos pais e famílias que chegam a comprometer o dinheiro destinado à alimentação das crianças.
O presidente também mencionou casos de pessoas que teriam tirado a própria vida em consequência das dívidas geradas pelo jogo. E concluiu:
“Ninguém fica rico apostando em Bet. Quem fica rico é o dono da Bet, o povo fica cada vez mais pobre”.
É difícil negar a gravidade dos problemas associados ao jogo compulsivo. Mas há uma pergunta que merece ser feita: se os riscos eram tão graves, por que o governo só tomou uma medida tão radical agora? E há outra questão, que nos remete a um posicionamento anterior da Igreja Católica: Lula e seu partido não poderiam ter dado mais atenção aos alertas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)?

O que dizia a CNBB?
Em dezembro de 2023, quase três anos antes da decisão de Lula, a CNBB reafirmava sua oposição à legalização dos jogos de azar no Brasil. Entre seus argumentos, destacava os prejuízos morais, sociais e familiares, além dos riscos de associação dessas atividades com a lavagem de dinheiro e o crime organizado.
Mas o trecho que mais chama a atenção é aquele que trata das consequências humanas do jogo compulsivo. Escreveu a CNBB:
“O sistema altamente lucrativo dos jogos de azar tem sua face mais perversa na pessoa que sofre dessa compulsão. Por motivos patológicos, esta pessoa acaba por desprezar a própria vida, desperdiçar seus bens e de seus familiares, destruindo assim sua família. Enquanto isso, as organizações que têm o jogo como negócio prosperam e seus proprietários se tornam cada vez mais ricos.”
E acrescentou:
“A autorização do jogo não o tornará bom e honesto.”
A nota, assinada pela Presidência da CNBB em 11 de dezembro de 2023, terminava com uma advertência contundente:
“O voto favorável ao jogo será, na prática, um voto de desprezo à vida, à família e a seus valores fundamentais. O Brasil não precisa disso!” (1)

Por que não ouviu a CNBB?
Eis uma pergunta que merece ser feita. Lula reconheceu publicamente, em 2026, a gravidade dos prejuízos que as apostas podem causar às famílias. A CNBB, por sua vez, já havia formulado alertas semelhantes em 2023.
Se os danos provocados pelos jogos de azar eram tão graves, como o próprio presidente passou a reconhecer, por que essa preocupação não se traduziu antes em uma política mais efetiva de prevenção e proteção das famílias?
A CNBB já havia alertado para o problema. Não era necessário esperar que a situação chegasse a proporções dramáticas para reconhecer os riscos. Quando estão em jogo a renda familiar, a saúde das pessoas e a proteção dos mais pobres, a prevenção também deveria ser uma prioridade.
É claro que há uma diferença entre a nota da CNBB, de 2023, que tratava da legalização dos jogos de azar em sentido amplo, e a medida anunciada pelo governo em 2026, voltada às apostas esportivas e aos jogos on-line. Não se trata, portanto, de afirmar que a Igreja antecipou exatamente a medida adotada por Lula, mas de reconhecer que já chamava a atenção para consequências sociais e familiares que o presidente viria a destacar.
Fica, assim, a pergunta: por que não se deu a devida atenção a esses alertas antes que o problema assumisse proporções tão graves?
E há mais uma questão: a nota da CNBB foi dirigida ao Legislativo, onde o PT tem seus representantes. Os deputados do partido tiveram conhecimento desse pronunciamento? E o presidente Lula, certamente informado de tantas questões políticas relevantes, tomou conhecimento do alerta dos bispos?
E aí Lula. Esqueceu-se do que a CNBB advertira? Ou vai dizer que não sabia de nada?
Não esqueça também que arrependimento tem que ser sincero…
Nota 1. O documento da CNBB foi encontrado em: Aleteia — CNBB emite nota posicionando-se contra a legalização dos jogos de azar. A nota original pode ser consultada no documento oficial da CNBB.
Vale a pena ver o pronunciamento completo.
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Valter de Oliveira é mestre em História Social pela USP, especialista em Ciência Política pela Escola de Sociologia e Política de SP e em Estudos de Problemas Brasileiros pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie (1987-2007), Faculdade Campo Limpo Paulista – Faccamp – (2009-2016) e Seminário Maria Mater Ecclesiae (2000-2014).
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