IRMÃ ALICIA KOTOWSKA: CARIDADE E HEROÍSMO ATÉ A MORTE

Pe. Reinaldo Bento

Imagem ampliada e criada por IA a partir de foto original

Ela entrou no caminhão que a levaria à morte. Fez isso apenas para que um grupo de crianças não enfrentasse seus últimos momentos sozinho. Irmã Alicja Kotowska sabia que não voltaria daquela viagem. Mesmo assim, estendeu os braços, acolheu os pequenos e segurou suas mãos.

Era 24 de outubro de 1939 quando a Gestapo chegou ao convento de Wejherowo, na Polônia, para prendê-la. Outras freiras já haviam insistido para que fugisse. Um esconderijo estava preparado em outra cidade, mas Alicja recusou a oportunidade de escapar.

“Eu não vou me salvar se, no meu lugar, levarem outra pessoa.”

Quando os agentes a levaram, ela ainda encontrou forças para perdoar quem a havia denunciado: Franciszek, o zelador da escola onde trabalhava.

Mas quem era aquela mulher antes de se tornar prisioneira dos hitleristas?

Nascida em Varsóvia, em 1899, Alicja era a segunda de oito filhos. Aos dezenove anos, decidiu estudar medicina, mas a guerra interrompeu seus planos. Durante a luta pela independência da Polônia, tornou-se enfermeira e trabalhou socorrendo soldados feridos, muitas vezes em condições extremamente perigosas.

Por seu trabalho, recebeu a Cruz da Polônia Restituta, uma das mais importantes condecorações do país.

Depois da guerra, retomou os estudos, mas acabou escolhendo outro caminho. Em 1922, ingressou na Congregação das Irmãs da Ressurreição. Em seu pedido de entrada, escreveu:

“Desejo viver e morrer por Cristo.”

Durante os anos seguintes, dedicou-se à educação. Tornou-se professora e diretora de escolas e, em 1934, foi enviada para Wejherowo, onde assumiu a direção de uma escola para meninas e a liderança do convento.

Era respeitada pelas alunas e conhecida por sua dedicação.

Então, em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia.

Floresta de Piasnica

A ocupação nazista trouxe prisões, perseguições e execuções em massa. Intelectuais, professores, religiosos, médicos e outras pessoas consideradas ameaças à ocupação passaram a ser perseguidos. Alicja, por sua posição e influência na comunidade, também entrou na mira dos alemães.

Mesmo sabendo do perigo, permaneceu em Wejherowo. Continuou seu trabalho e, segundo testemunhos posteriores, ajudou a esconder pessoas perseguidas, incluindo judeus.

Em 24 de outubro, foi presa pela Gestapo e levada para a cadeia de Wejherowo. Durante as semanas seguintes, dividiu o cárcere com outros poloneses perseguidos pelo regime de Berlim.

O destino de muitos deles já estava decidido: a floresta de Piaśnica, onde milhares de pessoas seriam assassinadas durante a ocupação.

11 de novembro de 1939 — O último gesto de Alicja

Naquele dia, um caminhão chegou para transportar um grupo de prisioneiros até o local em que seriam executados.

Imagem criada por IA

Entre eles havia crianças judias que haviam perdido seus pais. Estavam assustadas, chorando e sem ninguém que pudesse confortá-las.

Foi então que Alicja tomou uma decisão que seria lembrada por testemunhos posteriores.

Em vez de permanecer afastada, subiu na carroceria do caminhão e chamou as crianças para perto. Acolheu cada uma delas, acariciou suas cabeças e segurou suas pequenas mãos durante o trajeto.

Ela sabia para onde estavam indo. Mesmo assim, tentou oferecer àquelas crianças um pouco de conforto em meio ao terror.

O caminhão seguiu até a floresta de Piaśnica. Alicja e as crianças foram mortas junto com outros prisioneiros.

Naquele período, entre 12 mil e 14 mil pessoas perderam a vida naquela região, incluindo poloneses, judeus e pessoas com deficiência mental transportadas da Alemanha.

Perto do fim da guerra, os criminosos tentaram destruir as provas dos massacres, desenterrando e queimando corpos para ocultar seus crimes.

Mas não conseguiram apagar completamente o que aconteceu.

O reconhecimento

Depois da guerra, a história de Irmã Alicja Kotowska foi reconstruída por meio de testemunhos e investigações. Em 1999, ela foi beatificada pelo papa João Paulo II, sendo reconhecida entre os mártires da Segunda Guerra Mundial.

Sua história permanece ligada àquele último gesto: uma mulher que, diante da própria morte, escolheu não deixar crianças aterrorizadas enfrentarem aquele momento sozinhas.

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Fonte: post do pe. Reinaldo Bento. FB. 03.11.2026

O pe. Reinaldo Bento é sacerdote na Diocese de Osasco (SP). Faz um trabalho de evangelização através da escrita e dos meios digitais. É colunista da revista Ave Maria.

Notas:

1.Quantas pessoas foram assassinadas em Piaśnica?

As execuções ocorreram principalmente entre outubro e dezembro de 1939, nos primeiros meses da ocupação alemã da Polônia.

As estimativas tradicionalmente divulgadas situam o número de vítimas entre 6 mil e 14 mil pessoas, sendo muito comum encontrar a cifra de 12 mil.

As vítimas pertenciam a diferentes grupos:

  • Poloneses considerados inimigos do regime nazista, especialmente intelectuais, professores, funcionários públicos e lideranças locais.
  • Sacerdotes católicos e outras pessoas ligadas à Igreja.
  • Pacientes de hospitais psiquiátricos alemães e poloneses.
  • Judeus e outros opositores do nazismo.
  • Homens, mulheres e crianças.

2. A Floresta de Piaśnica

Floresta de Piasnica, na Polônia. Entre estas árvores, milhares de pessoas foram assassinadas pelos nazistas em 1939 e 1940. Entre elas estava a irmã Alicia Kotowska.

3. O santuário de Piaśnica

Capela memorial de Piasnica, construída em 2010 em homenagem às vítimas do massacre. No interior, encontram-se doze figuras, entre elas a da bem-aventurada Alicia Kotowska

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