O AVANÇO DO PROGRESSISMO NA IGREJA. Artigo 1.

Valter de Oliveira

Há exatamente 50 anos, ainda bem jovem (1), resolvi fazer um estudo sobre a Reforma Protestante. Pesquisei sobre Lutero, Calvino, Henrique VIII e, depois, sobre as mudanças doutrinárias promovidas pelos reformadores, em geral, em toda a Idade Moderna. Percebi, no fim, que muitas das ideias que adotaram e propagaram já se encontravam, em germe ou explicitamente, em heresias medievais. Heresias que, curiosamente, de um modo ou de outro, de acordo com escritores católicos, foram abraçadas por movimentos religiosos do mundo contemporâneo tais como o Americanismo, o Modernismo e o atual Progressismo.

Revendo meu estudo de então – que tem 10 capítulos não publicados – pensei que seria interessante mostrar aos amigos do site o que escrevi no capítulo IX onde comparo as ideias dos reformadores com o Modernismo e o Progressismo. Começo por tratar da tática dos hereges. Natural. Desde cedo aprendi que não basta conhecer os planos e poder de inimigos (2) no campo temporal ou religioso.  Era preciso, também, entender suas estratégias. Só assim é possível a vitória.

Passo a transcrever partes do estudo. Quando houver modificações ou adaptações será indicado.

“1. A Tática dos Hereges

Em toda a milenar História da Igreja podemos observar que as heresias, quando condenadas, procuram camuflar-se sob nova roupagem. O herege procura tanto quanto possível tomar aparência de ortodoxo, tentando permanecer a todo custo nas fileiras católicas, para mais facilmente arrastar as almas. Mas, quando o erro é condenado, depois de um momento de tranquilidade reaparece, frequentemente, defendido por uma corrente que, de modo mais velado e moderado, procura ressuscitá-lo no próprio campo do qual fora extirpado.

  1. Modernismo

“Foi necessária uma luta terrível para extirpar da Santa Igreja este veneno tremendo”. Porém, como diz Nosso Senhor, “os filhos das trevas são mais astutos que os filhos da luz”. No século passado o Americanismo (deixamos propositalmente de tratar dos católicos liberais), e no início deste o Modernismo, iriam tentar mais uma vez destruir, a partir do interior, a Santa Igreja de Cristo. Esse movimentos tinham muitos pontos comuns com o protestantismo contudo, foram muito mais radicais. O enorme perigo e os pérfidos princípios e objetivos do movimento modernista foram admiravelmente apontados na encíclica “Pascendi Dominici Gregis”, de São Pio X, em 1907:

“E o que exige que sem demora falemos é antes de tudo que os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos. Aludimos, veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja, e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia ou teologia, mas, concebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o conhecimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras, se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do Divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um simples homem”. (…) Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja tramam seus perniciosos conselhos (…) de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar” (pg. 4).

  • O Progressismo: um protestantismo mais radical?

No século passado[1] a proclamação dos dogmas da infalibilidade papal e da Imaculada Conceição tinham trazido graças imensas para a Cristandade. Apesar dos violentos ataques dos inimigos da Igreja, Pio IX soube defender com intrepidez o tesouro da Fé Católica e os direitos da Santa Sé. Com o Concílio Vaticano I o liberalismo católico ficou esmagado e o papado triunfou. Porém, helás! Traições inimagináveis e a falta de sabedoria, perspicácia e vigilância dos católicos fiéis, fez com que em pouco tempo o erro voltasse a renascer nas fileiras da Igreja. Com São Pio X a heresia interna foi gravemente ferida, mas não morreu. Astutamente, ela se fingiu de morta até o instante em que ousou novamente surgir à luz do dia. Já não havia mais São Pio X… com o tempo foi tirando suas sucessivas máscaras e hoje já se mostra por inteiro sob a face hedionda do progressismo. Seu poder é tal, sua influência é tamanha, que o Corpo Místico de Cristo já é quase irreconhecível, de tal forma foi desfigurado pelo erro. Se não fossem as palavras, a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo de que as portas do inferno nunca prevaleceriam contra a Igreja, dir-se-ia que pouco falta para ela ser destruída.

Hoje, nesta Paixão da Igreja, nesta época de apostasia suprema, poucos procuram ser novos Cirineus dispostos a carregar a Cruz da Fidelidade. Pelo contrário, uns escarnecem da Fé, como Herodes, Caifás e todos os que blasfemavam na Paixão; outros são indiferentes, preocupados com seus míseros problemas pessoais. Como São Luís Maria Grignon de Montfort na oração abrasada, podemos dizer a Deus:

São Luís Maria Grignon de Montfort

“Vossa divina fé é transgredida; vosso evangelho desprezado; abandonada vossa religião; torrentes de iniquidade inundam toda a terra e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo”.

Não é sem razão que Paulo VI disse que a Igreja passa por um período de “autodestruição” e que “a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus”. …

Autodestruição!… a palavra diz tudo. São aqueles mesmos que se dizem filhos da Igreja que estão cometendo este sacrilégio. Conscientemente, metodicamente, eles procuram fazer, como afirmam, uma Nova Igreja, panteísta, desmitificada, dessacralizada, relativista, desalienada, igualitária  (…) No plano religioso nós podemos dizer que ela é a quinta-essência dos erros surgidos na Pseudorreforma”.

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Por hoje terminamos por aqui. No artigo 2 da série sobre o Progressismo faremos um paralelo entre as teses protestantes e as progressistas dos anos atuais.  

Notas:

  1. Claro está que de lá para cá muita água correu debaixo da ponte. Muitas coisas devem ser revistas ou reestudadas e há muita informação nova. Contudo, em essência, o diagnóstico é o mesmo. É o que veremos em outra série em que analisarei o pensamento dos teólogos e hierarcas progressistas nos dias atuais.
  2. Tratar heresias como inimigas da Igreja era comum até o Concílio Vaticano II. Depois, na esperança de haver um saudável ecumenismo, a Igreja passou a trata-los de irmãos separados. Prova disso é o texto que publicamos no qual S. Pio X fala dos inimigos internos da Igreja. No meu texto eu era fiel  às críticas ao Americanismo e ao modernismo nos sécs. XIX e XX. Voltaremos ao assunto ao tratarmos do progressismo atual.

[1] Nota do revisor: A apostila foi escrita no séc. XX. O autor refere-se aqui, portanto, ao séc. XIX.

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